NOTÍCIAS

Carta aberta sobre o Mercado Público de Porto Alegre

Falar do Mercado Público é falar da alma da nossa cidade

Quando falamos do Mercado Público, falamos de uma Porto Alegre acolhedora, com uma vocação irrenunciável para a diversidade, o encontro, a amizade, a cultura, a celebração da vida em sua dimensão mais humanista e generosa.

O povo de Porto Alegre e quem conhece a cidade gosta do Mercado Público. Naquela fortaleza acolhedora, nas cores, nas vozes, nos cheiros, nas bancas que conhecemos pelos seus números e por aqueles que nos atendem, cabem a alma da cidade e o espírito de seus cidadãos. Entre suas paredes robustas, que suportaram enchentes, incêndios e conspirações contra sua existência, está guardada boa parte da história da cidade, pois desde seus primórdios as operações realizadas em seu interior instauraram as bases de seu desenvolvimento econômico, social e humano.

O Mercado, como a cidade, é de todos e de todas. O Mercado é dos trabalhadores, negros e brancos, que o construíram com sua força de trabalho, dos imigrantes das mais diversas origens que ali se instalaram com suas bancas, dos escravos libertos que a ele se dirigiram para reinventar suas vidas e nele encontraram o espaço para fortalecer as suas identidades ancestrais e, graças a sua luta, puderam cultivá-las com seus ritos e adorações.

Seus portões abertos a todos e todas nós inspiram cotidianamente para a possibilidade de um convívio rico, proveitoso e democrático, no qual cada porto-alegrense tem vez. As ações de compra e venda entre frequentadores e permissionários se desenvolvem na base da confiança e da camaradagem, pois esta é a tradição da casa. Seus estabelecimentos abrigaram gerações de artistas que cantaram seus amores e suas dores. Quantos sambas Lupicínio Rodrigues compôs em suas mesas?

Símbolo de resistência, o Mercado viu a cidade crescer a sua volta, os prédios erguerem-se, a modernidade transformar as formas de acesso, a paisagem adquirir outras feições, mas manteve-se firme, com os mesmos princípios de acolhimento, pela decisão dos porto-alegrenses que o consideram sua segunda casa.

Mais uma vez, o velho Mercado é assediado. Desta vez, por uma proposta que concede a gestão à iniciativa privada, que foi amplamente rejeitada nas várias audiências públicas e em todos os espaços onde a população pôde se manifestar. Uma proposta inoportuna que concretiza a incapacidade da atual gestão de cuidar da cidade e que desconsidera o mercado como patrimônio imaterial, pois nas primeiras versões o projeto tinha o desplante de proibir os cultos religiosos em seu interior. Sempre é possível melhorar a exemplo do que foi feito na grande reforma de 1996, mas a proposta não trata-se disso, trata-se de destruir o mercado que conhecemos e gostamos.

A operação de concessão, realizada às vésperas das eleições, com graves questionamentos sobre a legalidade do processo, provocará aumento de aluguéis, exclusão de permissionários, elevação de preços e afastamento de parcelas da população, sem falar no risco de transformar o seu perfil de abastecimento popular e diferenciado. Cuidar do mercado é cuidar da alma da cidade.

 

Manuela d’Ávila e Miguel Rossetto

0 0 voto
Qual sua nota para o conteúdo?

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram

O que você pensa sobre isso?

Se inscrever
Notificar de
guest
0 Comentários
Feedbacks em linha
Ver todos os comentários
0
Adoraria saber seus pensamentos, por favor, comente.x
()
x